Resenha – A Escrava

Imagem 1: Aquarela (1820/22). Guillobel, Joaquim Cândido, 1787-1859. Coleção Usos e costumes dos habitantes da cidade de S. Luís do Maranhão Fonte: Brasiliana Iconográfica.

A ESCRAVA (conto) – Revista Maranhense, ano 1, nº 3, novembro de 1887*

É uma narrativa curta que possui por volta de vinte páginas, publicada originalmente em 1887, na Revista Maranhense, periódico que circulou no Maranhão e com o qual Firmina colaborou em seu segundo e terceiro números.

O conto se passa em um salão com pessoas “da sociedade” discutindo diversos temas até que se inicia um debate sobre o “elemento servil”.  Neste momento, a personagem “uma senhora” entra em cena, toma a palavra e passa a centralizar a discussão, tornando-se a narradora da trágica história da personagem Joana, uma escrava em fuga.

Joana foi uma escrava libertada aos cinco anos de idade e, após dois anos de vivência como liberta, foi reescravizada. Indignada, fugia constantemente. Após muitos anos de violência, a personagem enlouquece, principalmente depois da separação dos filhos – seus filhos gêmeos, de oito anos, Carlos e Urbano – que foram vendidos no tráfico interprovincial e levados para o Rio de Janeiro.

Emmanuel Zamor (1840/1917): Crianças Negras. Óleo sobre Madeira. São Paulo. Museu  Afro Brasil.
Emmanuel Zamor (1840/1917): Crianças Negras. Óleo sobre Madeira. São Paulo. Museu Afro Brasil.

Em sua última fuga, essa “uma senhora” a auxilia escondendo-a do feitor, até que chega Gabriel, seu outro filho, que também está em sua procura.  Essa “senhora” lhes oferece proteção e os leva para sua casa e quando questiona Gabriel sobre a história da mãe, Joana interrompe a conversa e mesmo fraca e já à beira da morte insiste, “não. Eu mesma. Ainda posso falar. E começou”. É a partir desse lugar que Joana narrará – em primeira pessoa – as memórias de sua vida por meio de cenas de escravidão e revelará os projetos que perseguiu durante sua trajetória.

Com este recurso, Joana passa a ser a protagonista da história narrada pela protagonista anônima (“uma senhora”) do conto.

Ao procurar contar sua história, a mestiça inicia sua fala afirmando uma condição: “- Minha mãe era africana, meu pai de raça índia, mas eu de cor fusca. Era livre, minha mãe era escrava.” Com Firmina, temos duas personagens escravizadas, Joana do conto de 1887 e Susana do romance de 1859, que narram suas memórias a partir da noção de liberdade, e ao fazê-lo, inscrevem-se como personagens que representam a pessoa negra enquanto sujeito autônomo na literatura brasileira oitocentista, dando partida a um processo que acabaria por alçá-las à condição de sujeitos do discurso no campo do poder literário brasileiro no século XIX.

* Luciana Martins Diogo, pesquisadora da obra de Maria Firmina dos Reis e organizadora do site. Doutoranda em Literatura Brasileira (FFLCH/USP); Graduada em Ciências Sociais (FFLCH/USP); com mestrado em Estudos Brasileiro (IEB/USP).


 

Modesto Brocos. Crioula de Diamantina (1894) óleo sobre madeira 37cm x 27,5 cm. Coleção Particular.
Modesto Brocos. Crioula de Diamantina (1894) óleo sobre madeira 37cm x 27,5 cm. Coleção Particular.