Valsa Rosinha – de Maria Firmina dos Reis por Diana Villalobos

Maria Firmina dos Reis foi dessas figuras incríveis do século XIX que expressou seu gênio artístico experimentando diferentes linguagens.

Uma professora que publicou poesia, prosa poética, romance, contos, novelas, crônicas, enigmas e charadas, sendo também escritora de diário, além de atuar como folclorista e compositora musical.

Nascimento Morais Filho em seu livro/biografia Maria Firmina: fragmentos de uma vida (1975) reúne, afora a produção artística, depoimentos de filhas/os de criação e de ex-alunas/os da escritora.

Os dados orais recolhidos por Morais Filho permitem percorrer o local do nascimento de Firmina, em São Luís, incorporando maiores detalhes dos arredores. E o espaço em que ela residiu durante sua vida com a irmã, a prima e a tia, já em Guimarães, torna-se mais rico de elementos sociológicos e culturais.

Vestígios de si: um retrato de Firmina por meio das fontes orais

Leude Guimarães e Nhazinha Goulart, filhos de criação de Maria Firmina, apresentam dados sobre o núcleo familiar da escritora, expondo alguns elementos que iluminam pontos importantes sobre a formação de Firmina. Por eles, sabemos que a escritora fazia parte de uma família de músicos – Túlio Reis, Manduca Reis e Deca Reis; esta informação nos ajuda a comprender a contribuição que Maria Firmina teve também no campo da música, possuindo composições musicais atribuídas a ela como: Auto de bumba-meu-boi (letra e música); Valsa (letra de Gonçalves Dias e música de Maria Firmina dos Reis); Hino à mocidade (letra e música); Rosinha, valsa (letra e música); Pastor estrela do oriente (letra e música); Canto de recordação (“à Praia de Cumã”; letra e música).

Ainda, segundo os informantes de Morais Filho, numa explosão entusiástica do seu sentimento por ver os escravos livres do cativeiro, em 1888, Firmina compôs letra e música de seu Hino à liberdade dos escravos.

Vê-se que, nessa memória, articulam-se dois elementos: seu capital cultural (que a fazia versada em música) e sua postura política, ambos elementos incomuns à época para uma mulher filha de uma escrava alforriada.

É ainda significativo sabermos que fazia parte de uma família de músicos porque isso socializava-a num universo simpático às artes. Assim, fatos corriqueiros, como o episódio em que compõe música de improviso:

“Um dia Otávia pediu em nome das outras companheiras escravas ‘Mamanquinha (como era intimamente chamada), faz um meu Bumba meu boi?’ Firmina não se fez de rogada. Escreveu a letra e música. Otávia foi a vaqueira e Leonor a companheira.”  

(Morais Filho, 1975; n.p)

Ou ainda, os discursos não planejados em agradecimento a homenagens recebidas atestam certo traquejo cultural, denotando uma condição de classe que se não era privilegiada, também não era miserável.

Assim, mesmo sem diplomas escolares, os antecedentes familiares podem ter definido de forma marcante a atuação de Firmina como professora, escritora e compositora musical.

Ouça a Valsa Rosinha interpretada por Diana Villalobos

Segundo Nascimento Morais, baseado em testemunho de Nhazinha Goulart, Maria Firmina teria composto essa valsa a pedido de algumas jovens que desejavam homenagear uma amiga de São Luís chamada Rosinha Almeida, a qual tinha o costume de passar as férias em Guimarães (Capítulo “Nótulas”, item 17).

Colaboração de Diana Villalobos, que gentilmente interpretou a partitura composta por Zequita, contida no livro Maria Firmina: fragmentos de uma vida, de Nascimento de Morais Filho, a convite do artista e designer gráfico Wal Paixão.

A Diana é costarriquenha, clarinetista graduada pela Universidade Nacional da Costa Rica. Bolsista Icetex 2018 pelo Mestrado em Criação Audiovisual, Pontificia Javeriana, Bogotá Colômbia.  Seu interesse atual reside na pesquisa e trabalho com diferentes mídias audiovisuais, assim como sonoras e de artes eletrônicas.

ROSINHA [Valsa]

Rosinha querida,
Escuta meu canto:
Das tuas amigas
Aceita o singelo canto.

*
Rosinha querida,
Escuta, no entanto,
Das tuas amigas
O singelo canto.
*Rosinha querida,
Tu és uma flor;
Rosinha querida
Tu és um grande amor.
*
Rosinha querida,
Tens muita amizade;
Rosinha querida,
Tu levas saudade.

*
Rosinha querida,
Tens muita amizade;
Rosinha querida,
Tu deixas saudade.
*

As composições musicais atribuídas a Maria Firmina dos Reis

Nascimento Morais Filho afirma em seu livro Maria Firmina: fragmentos de uma vida (1975) que:

  • “Se a documentação escrita nos leva não poucas vezes a cometer erros, por mais atenção que se tenha, quanto mais a documentação oral, onde os equívocos são frequentes!…”
  • “No entanto, até prova em contrário, com exceção da ‘poesia da garrafa’, e tenhamos as maiores reservas quanto às natalinas aqui divulgadas pelos motivos apresentados, consideramos todas as composições (letra e música) como suas”.

Para Sérgio Barcellos Ximenes:

“Dois fatores não mencionados nessa autocrítica são o risco de se confiar na memória de contemporâneos, passadas tantas décadas, e as possíveis alterações causadas nas produções originais pelas contribuições involuntárias dos populares, já que estamos falando de tradições orais. Assim, há duas diferenças marcantes entre essa suposta produção musical de Maria Firmina dos Reis e as demais (obras de ficção, poemas, jogos de palavras etc.), diferenças que remetem a questões de fonte e metodologia.  Para o restante da produção firminiana há fontes fidedignas e inquestionáveis (registro em livros e periódicos da época), e elas podem ser consultadas por qualquer pessoa. Para as músicas e letras só temos o depoimento oral de algumas pessoas que conviveram com Maria Firmina, e ainda assim coletados mais de 60 anos após os fatos. Não há registro dessas produções em livro ou periódico, partituras anteriores às conversas de Nascimento, gravações da época (obviamente) ou qualquer outro material que poderia atestar com segurança a validade das informações prestadas pelas testemunhas.As condições desse depoimento recomendam cautela na atribuição de autoria e, mais ainda, quanto às suas particularidades: as palavras das letras, e as notas, os acordes e as melodias das canções”

Morais Filho baseia a sua certeza de autoria justamente na tradição popular de Guimarães e na preservação da herança musical de Maria Firmina entre a população da cidade.


*O livro de Nascimento Morais Filho apresenta partituras de autoria do “Maestro Zequita” (como era conhecido o saxofonista José Soeiro), que transcreveu as supostas criações de Maria Firmina para a linguagem musical.

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